O consumo de energia em um cenário de crise

Devido à turbulência no setor elétrico, não raramente temos sido questionados por gestores de empresas a respeito do quadro energético no Brasil. Há uma forte preocupação sobre como vão se comportar as tarifas de energia elétrica no mercado cativo e também com o preço no mercado livre além da possibilidade de racionamento.

Resolvemos então elaborar este boletim, em forma de perguntas e respostas, reunindo as principais dúvidas dos nossos clientes as quais, acreditamos serem as mesmas da maioria dos consumidores industriais ou comerciais atualmente.

As informações contidas neste boletim refletem a visão da BASE Energia considerando principalmente os posicionamentos dos órgãos oficiais do setor elétrico e também opiniões de especialistas independentes.

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Por que o setor elétrico brasileiro está em crise?

Principalmente pela condição hidrológica desfavorável mas há outros fatores como interferência política e atrasos em investimentos.

Em 2013 o país começou a sofrer com a falta de chuva, a estiagem e a onda de calor de 2014 fez os reservatórios de algumas hidrelétricas chegaram aos piores índices desde o racionamento de 2001. A falta de chuva provocou, desde o primeiro semestre do ano passado, o acionamento de todas as usinas térmicas do país, que foram construídas para operar só em períodos críticos das hidrelétricas. Por isso há uma alta no custo da energia, já que a geração térmica é mais cara que a hidrelétrica.

Não bastasse isso, houve aumento de consumo incentivado principalmente pelo próprio governo com o preço da tarifa menor, com a redução de tributos sobre eletrodomésticos e com o programa “Minha Casa Melhor”, que visava equipar de eletrodomésticos as residências do “Minha Casa, Minha Vida”. E para piorar ainda mais, diversas obras do setor elétrico estão atrasadas.

As distribuidoras que não estão com 100% da energia contratada e por isso precisam comprar a diferença no mercado de curto prazo, estão pagando um valor muito alto e bem acima do valor de venda causando um buraco que só faz crescer e que precisou ser parcialmente tapado com empréstimos do governo – R$ 11,2 bilhões em abril/14 e R$ 6,5 bilhões em agosto/14.

A energia elétrica vai ficar mais cara? Quanto mais cara?

Sim.

As tarifas das distribuidoras estão subindo este ano em média 25%, mas esses aumentos não refletem ainda os empréstimos realizados pelo governo.

Somente devido aos empréstimos espera-se que as contas de energia fiquem 8% mais caras em 2015. Considerando todos os outros custos das distribuidoras, como o repasse de custos das termelétricas de 2013, que foi adiado para 2015, a conta de luz deve ficar de 24% a 25% mais cara em 2015.

E a MP579 da Dilma?

A redução na tarifa, em média de 20%, praticada no ano passado pelo governo federal, também piorou a situação. Incentivar o consumo de energia, com tarifas mais baratas, foi como dar um tiro no próprio pé. Talvez não se esperasse uma falta de chuva tão acentuada.

Vai haver racionamento de energia?

Em 2014 não.

Para 2015 calcula-se uma chance de racionamento de energia de 33%, vai depender da ocorrência de chuva. A partir de novembro/14 será possível fazer um prognóstico mais correto.

Então vale a pena pensar em geração própria?

Para os consumidores com tarifa horo-Sazonal (tarifas diferentes para horário de ponta e fora de ponta), com a elevação dos preços da energia elétrica, torna-se mais atrativa a geração própria no horário de ponta utilizando-se óleo diesel como combustível. Fora do horário de ponta, a geração própria de energia à base de óleo diesel não vale a pena.

A geração de energia elétrica a partir de outras fontes energéticas depende principalmente da disponibilidade de combustível.

Geração de energia fotovoltaica ainda é inviável economicamente devido ao preço dos equipamentos.

O que são as bandeiras tarifárias?

É um mecanismo que permitirá o repasse mensal para a conta de luz dos custos extras com a geração de energia térmica. Assim, a medida que as usinas termelétricas forem acionadas aumenta-se o preço da energia para o consumidor final.

As bandeiras vão funcionar como um semáforo de trânsito: a bandeira verde significa custos baixos para gerar a energia, portanto, a tarifa de energia não terá nenhum acréscimo naquele mês. A bandeira amarela indicará um sinal de atenção, pois os custos de geração estão aumentando – um acréscimo de R$ 1,50 para cada 100 quilowatts-hora (kWh) consumidos. Já a bandeira vermelha mostra que o custo da geração está mais alto, com o maior acionamento de termelétricas, e haverá um adicional de R$ 3,00 a cada 100 kWh.

As bandeiras vão começar a valer a partir de quando?

O sistema de bandeiras tarifárias deveria ter começado a vigorar em janeiro deste ano, mas o governo adiou para 2015 o início da implantação.

É vantajoso ir para o mercado livre de energia?

Não. Devido a escassez de chuva, o preço da energia subiu absurdamente no mercado de curto prazo, contaminando os preços no médio e longo prazo do mercado livre.

Mesmo com a alta do preço da energia no mercado cativo, não é recomendada a migração para o mercado livre. Os preços no mercado livre estão altos e instáveis, qualquer oscilação de previsão de chuva faz os preços variarem muito.

O mercado livre voltará a ser atrativo somente após a regularização dos reservatórios, principalmente da região sudeste, o que dependerá de períodos de chuva generosos. Estima-se que os reservatórios demorarão pelo menos três anos para voltar aos níveis normais, isso se os próximos anos forem chuvosos.